18 dez

Vida em abrigos não convence mendigos a deixar a rua

MAURÍCIO THUSWOHL

da Folha de S.Paulo, no Rio [29/06/2003 – 03h50]

“Não troco Copacabana por lugar nenhum no mundo.” A declaração não é do escritor Paulo Coelho ou do arquiteto Oscar Niemeyer, moradores ilustres de um dos bairros mais famosos do Rio de Janeiro, mas de Aline da Conceição, 28, que não tem casa no bairro e mora há dez anos na areia.

Sem profissão, ela vive de pedir esmolas e prefere essa situação do que ficar sob os cuidados da assistência social. “Na rua, a gente batalha uma graninha e pode tentar uma sorte melhor.”

Aline foi um dos 98 adultos recolhidos das ruas de Copacabana pela operação Zona Sul Legal, na última semana. Chegou no centro de triagem da Fundação Leão 13 por volta das 8h de quinta-feira e, às 14h, já arrumava suas coisas para voltar para a rua. Dos 98 recolhidos desde segunda-feira, 35 haviam voltado às calçadas de Copacabana na sexta.

Apesar de ter família no município de Mesquita (Baixada Fluminense), Aline não cogita morar lá. Ela tem uma filha, Claudiane, de 14 anos, e esperava que a menina não visse seu nome no jornal: “Nós não nos vemos e ela não sabe o que faço. Talvez fique sabendo que moro na rua”.

A opção demonstra que, além da dificuldade de se adaptar às regras e rotinas dos abrigos, os mendigos não ficam sob os cuidados da assistência social por uma razão simples: nas ruas, eles ganham dinheiro. Nos abrigos, não.

Apesar de terem lançado em conjunto a operação Zona Sul Legal, com o objetivo de aumentar a “sensação de segurança” dos moradores de uma das áreas nobres da cidade, a Prefeitura do Rio e o governo do Estado não têm programas capazes de garantir à população de rua a reinserção no mercado de trabalho.

“Me trouxeram para cá, mas não sou mendiga. Sou trabalhadora, fui roubada e ainda me tratam assim”, reclamou a ambulante Janaína da Silva, 28. Ela disse que a mercadoria que havia comprado para vender foi tomada por soldados da Guarda Municipal.

Ao lado do marido e também camelô Sebastião Pereira, 45, Janaína disse que vende balas e doces nos semáforos de Copacabana e que dorme há um ano nas ruas do bairro: “Se roubam nossas coisas, não posso vender e ganhar dinheiro. Sem dinheiro, não podemos pagar aluguel e temos que dormir na rua. Está tudo errado”.

Nas instalações da Fundação Leão 13, os assistentes sociais fazem o que podem para atender as pessoas recolhidas na operação. Cada pessoa que chegou recebeu alimentação (café da manhã e almoço), tomou banho e ganhou roupas limpas, além de consultas médica e odontológica.

Quando percebem um caso de doença mais grave, as assistentes sociais tentam convencer a pessoa a permanecer no abrigo e a aceitar tratamento médico.

Wagner Santana, 18, descobriu que está com tuberculose dias antes de ser recolhido em Copacabana. Ex-usuário de drogas, ele ainda assim preferia voltar a pedir esmolas do que ser encaminhado a um hospital público. Só se convenceu a se tratar quando sua namorada, Ana Paula de Oliveira, 26, decidiu ficar e acompanhá-lo.

“Foi a salvação”

Muitos dos que vivem nas ruas da zona sul do Rio vêm de outros Estados. Alguns receberam bem a proposta do governo estadual de pagar passagem para quem quiser voltar à cidade de origem.

O artesão Davi Gomes dos Santos, 30, veio de Salvador (BA) e estava há dez dias no Rio em busca de emprego: “Não consegui nada. Fiquei os primeiros dias numa pensão, depois acabou o dinheiro e tive que dormir na praia”.

Santos ganhará uma passagem para voltar à Bahia. “Terem me recolhido foi a salvação. Estava sem dinheiro, com medo dos bandidos da rua e não tinha como ir embora.”

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