7 jan

BANQUETE DE GENTE: COMENSALIDADE E CANIBALISMO NA AMAZÔNIA

Carlos Fausto

MANA 8(2) (parte do texto completo)

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Ao contrário do jaguar, temível predador solitário, os humanos possuem recursos para distinguir a alimentação cotidiana do canibalismo. Daí a importância do fogo culinário nos mitos analisados por Lévi-Strauss em Le Cru et le Cuit (1964). Esses mitos não falam da instauração de uma ruptura definitiva entre cultura e natureza, mas sim da constituição de dois códigos predatórios, o do jaguar e o dos humanos, que faz do primeiro um mestre entre mestres e permite aos segundos produzir o parentesco. O fogo culinário torna possível a alimentação carnívora não-canibal, permitindo aos parentes produzirem-se como parentes. Se só consumissem animais-agentes terminariam por ou bem identificar-se com eles (tornando-se um deles), ou bem por não reconhecer outra forma de relação além da devoração. Eis por que alguns caçadores não comem sua própria presa, ou não a transportam, ou evitam certas partes como a cabeça. Eles querem continuar a ser humanos, provendo de carne suas esposas, filhos e afins. Daí por que a generosidade e a moderação são indexadores básicos da aceitação do parentesco, enquanto a gula e o egoísmo são associados ao feiticeiro, ao jaguar e à solidão.

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