Que país é este? (por Alberto Villas)

7 ago

Por aqui vejo um país tristonho, enrolado numa bandeira vermelha desbotada, socialista. Vejo um país com algumas estrelas na bandeira verde, azul e amarela, poucas no céu e nenhuma no peito. Todos à espera do desenrolar dos acontecimentos. Um país entre o tédio e o pânico. Um país onde já tem gente com saudade daquelas capas de “Veja” anunciando uma nova dieta, uma fórmula mágica da eterna juventude.
Lá fora existe um outro país que chamam de Brazil, de Brésil, de Brazilien. Um país que está sendo descoberto. Lá fora, Seu Jorge é estrela de primeira grandeza. Ganhou a capa da revista francesa “Vibrations”, ganhou a capa da “Nous Paris” e um ensaio fotográfico na “Rolling Stone”.
Lá fora Caetano Veloso é capa da “Les Inrockuptibles”, a mais moderna revista pop do país de De Gaulle. Lá fora o cd “In Cité” de Lenine é vendido com um adesivo com todas as estrelas possíveis do “Le Monde de La Musique”. Um disco com o adesivo “aprovado e recomendado” pela “Télérama”, a “Vejinha” de Paris.
Lá fora Rappin Hood está num artigo de página inteira do “Expresso” de Portugal, segurando a bandeira da luta contra o machismo. Lá fora, Porto Alegre é saudada como cidade laboratório pelo prestigioso “El Pais”, o mais importante jornal da Espanha.
O outro Brasil, mais precisamente “l’autre Brésil”, está na capa do tablóide “Courrier International”. O jornal estampa a foto de uma baiana cem por cento com um sorriso aberto como se fosse um dia de carnaval. E anuncia “um país da democracia participativa, da economia solidária e da luta contra o machismo”.
Lá fora, o jornal “Sport” abre suas páginas para a ex-prefeita Marta Suplicy, uma “star brésilienne”, e arrisca que ela pode vir a ser um dia presidente deste nosso país, um país que anda jururu enrolado numa bandeira vermelha surrada, puída, socialista.
“La Nacion”, de Buenos Aires, manda um enviado especial a Curitiba, a capital ecológica do mundo, para fazer uma grande reportagem sobre a cidade de Jaime Lerner, Dalton Trevisan e Paulo Leminski. A cidade que está dando certo num mundo cheio de cidades que não estão dando certo. Um exemplo!
A revista “Sport Model” abre espaço para anunciar que a moda no verão parisiense são as fitinhas do Senhor do Bonfim, aquelas que dão sorte, sabe Ogum pra quem. Mostra também os escapulários e oratórios de um país que anda com fé porque a fé não costuma faiá.
Na mesma “Sport Model” estão o ketchup de goiaba, os sabonetes da Natura e os biquínis de Ipanema. Na mesma “Sport” lá está o moleque Robinho todo sorridente na capa, uma estrela que nasce.
“Estudando o Pagode”, o recente disco de Tom Zé, aquele que não mereceu sequer uma linha na coluna Datas de “Veja”, ganhou uma reportagem de página inteira no “La Stampa” italiano. Ganhou a capa da revista “Blitz” portuguesa e meia página no “Diário de Notícias”, o principal jornal de Portugal. O mesmo Tom Zé está na capa da “Télérama”, em uma página inteira da “L’Express”, a “Veja” francesa. A “Le Point” registra na lista dos mais vendidos o livro “Le Zahir”, de Paulo Coelho.
Marisa Monte andando de bicicleta está na capa da “Paris Match” e o Brasil de norte a sul ganhou a capa da “Grands Reportages”. A revista do “Le Monde” que circulou no último fim de semana abre espaço para uma série de quatro reportagens sobre um país chamado Brasil. Começou falando dos índios e anuncia para a semana que vem as raízes africanas.
Enquanto isso, por aqui vejo apenas um país cabisbaixo, enrolado numa bandeira vermelha meio sem cor, meio sem graça, meio socialista. Esperando o desenrolar dos acontecimentos.

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