ainda a mendicidade

3 jan

“Porque são desprezados os mendigos, uma vez que o são, de facto e universalmente?”

“(…)As pessoas parecem ter a ideia de que existe uma diferença essencial entre mendigos e a gente que “trabalha”.(…) Os trabalhadores “trabalham”, os mendigos não “trabalham”: são parasitas, indignos por natureza.(…)No entanto, se examinarmos a coisa mais de perto, veremos que não há qualquer diferença essencial entre os meios de existência de um mendigo e os de um sem-número de pessoas respeitáveis. Os mendigos não trabalham, diz-se; mas o que é trabalhar?(…) Um mendigo estando na rua, faça o tempo que fizer, e apanhando varizes, bronquite crónica, e assim por diante, em virtude do exercício regular da sua atividade. Trata-se de uma profissão como outra qualquer; completamente inútil, é certo – mas muitas profissões respeitáveis são também completamente inúteis. Como tipo social, um pedinte suporta bem a comparação com outros personagens. É honesto quando o comparamos com os vendedores da maior parte dos medicamentos; inteligentíssimo, comparado com o proprietário de um jornal de domingo; amável, comparado com um cobrador de dívidas – em resumo trata-se de um parasita mas de um parasita perfeitamente inofensivo. Raramente extrai da comunidade mais do que lhe é estritament necessário para sobreviver e, coisa que o deveria justificar perante as ideias éticas dominantes, paga-o bem caro com esforço e sofrimento. Não penso com efeito, que haja no mendigo seja o que for que o torne diferente das outras pessoas ou que dê à maior parte dos homens de hoje o menor direito a desprezá-lo.(…) Porque são desprezados os mendigos, uma vez que o são, de facto e universalmente? Julgo pela simples razão de não conseguirem ganhar a vida mantendo-se a um nível mínimo de decência. Na práctica ninguém se interessa por que o trabalho seja útil ou inútil, produtivo ou parasitário; a única coisa que se exige de um trabalho é que dê lucro.(…) o que se repete é uma única injunção: “Ganha dinheiro, ganha-o legalmente e ganha-o em boa quantidade.” O dinheiro tornou-se a grande prova de valor. Como os mendigos falham na produção dessa prova, tornam-se seres humanos condenados a um desprezo geral.”

“Na penúria em Paris e em Londres”
George Orwell (1933)

Uma resposta to “ainda a mendicidade”

  1. Julio Cesar Corrêa janeiro 6, 2006 às 3:26 pm #

    Que texto maravilhoso! Um presente!gd ab

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