BIOPOLÍTICA

14 fev

texto originalmente publicado em http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2694,1.shl
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Antropologia de si mesmo
Por Carlos Alberto Dória
Professor descreve a reconstrução de seu corpo e de seu “eu” após um acidente que quase lhe tirou a vida

Ao me ver, o antigo professor se levanta e caminha ereto em minha direção para um abraço, como sempre num misto de afeto e formalidade. A elegância empertigada, pensada nos seus detalhes ínfimos, me apresenta uma mesma pessoa, depois de tanto tempo e apesar dos cabelos mais brancos e avançados pelos 60 anos. O humor sarcástico de sempre reforça a certeza ilusória de que é ele mesmo, plenamente recuperado de um grave atropelamento que quase lhe tirou a vida. É o nosso primeiro encontro após muitos anos, e me parecem estranhos os e-mails nos quais me advertira mais de uma vez: “Eu mudei muito”.

Raros são os relatos de alguém que, atirado no limiar da morte, empreende o caminho de volta. Especialmente quando esta volta não é relatada como obra do espírito santo, mas da máquina médico-hospitalar, da biopolítica.

Pagamos mensalmente um seguro saúde, oramos para Nossa Senhora da Boa Morte, num ritual de encomendação presidido por nós mesmos, onde deuses se misturam a aparelhos médico-hospitalares. Achamos que o natural da morte é que venha vindo, se instale no fluxo da vida e, um dia, a devore com o mínimo de dor possível. Um ponto para o qual convergimos por caminhos tão variados. O filme “As Invasões Bárbaras” (2003) mostra essa resignação e a tentativa de transformar a sua certeza na última pulsão de vida, num grito de insubordinação e revisitação da vida.

Edgard de Assis Carvalho, carioca, professor da PUC paulista que formou tantas gerações de antropólogos, resolveu escrever um livro em que relata a sua volta para a vida depois de haver sido estraçalhado por um carro na madrugada de 24 de outubro de 2004. Uma recuperação que durou um ano, agora materializada num texto incomum, através do qual recupera também a dimensão afetiva e intelectual da vida atropelada naquela madrugada não tão distante.

Mas o personagem de “Virado do Avesso” não é como o Rémy de “As Invasões Bárbaras”: um professor universitário que, diante do fim, passa em revista a sua história pessoal e o enlace desta com a história de uma geração. Vítima de politraumatismo, Edgard é apropriado pela máquina médico-hospitalar, este aparado do biopoder pronto a realizar uma série de procedimentos desencadeados a partir da “disponibilidade de um fundo bancário” e produzir, em troca, um corpo.

A primeira condição da biopolítica é a supressão da eficácia da consciência, do “eu”, no processo presidido pela técnica. Num relato na terceira pessoa, Edgard mostra-se na alteridade: ele é “o corpo”. A violência parte o sujeito em dois e, como em “O Espelho” de Machado de Assis, inaugura uma perspectiva que olha de fora para dentro num mundo educado para ser visto de dentro para fora. O autor constrói uma espécie de “antropologia de si” diante do “outro” que é o próprio corpo, visto na sua existência de objeto sobre o qual trabalha a máquina médica.

Este corpo é manipulado de todas as formas -operado, higienizado, estimulado por uma “alcatéia de fisioterapeutas”- até o limite temporal e estatístico que o sistema de seguro-saúde começa a pressionar para expulsá-lo do domínio médico-hospitalar. Um tempo que coincide com o desejo de fuga, a exemplo do que outro antropólogo, Darcy Ribeiro, fizera para viver em paz os seus últimos dias. Este desejo é também a retomada do indivíduo-sujeito, do domínio da consciência que pode levar para fora dali o corpo semi-(re) feito.

O segundo passo dessa antropologia de si é relatado na primeira pessoa do singular e corresponde à passagem da alteridade imposta pela biopolítica à reconstrução da identidade, a recorporificação do eu que olhava de fora para dentro, restaurando o lugar interior da consciência que contempla o mundo. Treinamentos, repetições de exercícios, recuperação de posturas, movimentos e equilíbrios -trajetória que religa a consciência, a vontade, às terminações nervosas que comandam o corpo e que, ao funcionarem, recriam uma totalidade viva que se auto-comanda.

Indivíduo de vida solitária, o cenário inicial dessa retomada é uma casa de saúde onde se reúnem velhos à espera do desfecho final. A defesa nesse ambiente é a cama-destino, o quarto metaforizado em cabine de um transatlântico de luxo, os óculos escuros e o boné que destoam dos demais pacientes. Um eu que se reconstitui não pode se misturar.

Aos poucos se insinuam fragmentos de memória das mortes e das dores: o amante desaparecido nos anos 80, a mãe morta nos anos 90, a prisão nos anos 70. Fragmentos de uma “Carta ao Pai” emergem como âncoras no passado, explicando como desistiu da música, a educação sexual e tantas outras abordagens equivocadas do pequeno “eu” que se resumiram no sentimento de ódio e ressentimento dirigido à figura paterna. Segue-se a decisão irreversível de finalizar a análise de tantos anos, a frieza do corte do vínculo um dia imaginado essencial.

Aos poucos as pessoas à volta se humanizam. Velhos aparentemente amontoados na casa de saúde se convertem em escritores, em pais de ex-alunos, em gastrônomos. Os espaços de convivência vencem a cabine do transatlântico metafórico. Planos reais ou fictícios enlaçam projetos conjuntos no futuro. E voltam as leituras, o exercício acadêmico das traduções, a acupuntura e mesmo o despertar de um “self autobiográfico” e a percepção de que “o corpo-sujeito estava sendo transformado numa árvore do conhecimento”, a vida onírica se insinuando nos procedimentos regulamentares.

As seqüências da cadeira de rodas para as muletas, a reconquista de movimentos, ganham a dimensão transcendente da cura. A própria formação teórica oferece paradigmas vivenciais quando lê “Com uma perna só”, do neurologista Oliver Sacks, que relata minudentemente sua recuperação de um acidente sofrido na Noruega, em 1974, e chama a atenção para uma espécie de sexto sentido, conhecido como propriocepção, que permite ao corpo “saber de si”. Um materialismo sólido não permite que a esperança descambe para a religiosidade e o misticismo.

A hidroginástica e o sentimento purificador da água, restaurando vínculos entre vida e imaginação, os progressos terapêuticos que aos poucos vão revelando a contribuição dos outros e transformando o eu narrativo numa nova primeira pessoa do plural. Este “nós” faz progressos que Edgard já não pode creditar apenas à sua determinação e, ao mesmo tempo, ajuda a reinscrever o eu acidentado na sociabilidade presidida pelo domínio das técnicas do corpo. “Aos poucos, nas sessões aquáticas, fomos reduzindo o peso da verbalização”, escreve o antropólogo, como se fizesse um adendo vital ao texto sobre as “técnicas do corpo” de Marcel Mauss, que tantas vezes apresentou em aulas.

As saídas cada vez mais freqüentes da casa de repouso, a retomada de reuniões acadêmicas, o zelo pelas traduções -a supressão de advérbios desnecessários- o processo para responsabilização do autor do atropelamento são gestos na linha da integridade psíquica e moral, quiçá daquela mesma cidadania cuja defesa levara o mesmo corpo a ser encarcerado pela ditadura, nos já longínquos anos 70. Afinal, ninguém dispõe de dois corpos numa mesma vida.

E chega também o dia da rentrée na vida acadêmica, quando o professor experiente treme, se apresenta apoiado nas muletas de um esquema previamente construído para desdobrar o discurso sobre “os desafios da antropoética e da socioética, as potências da eco-organização, as deformações da memória”, até que passa a fazer referências explícitas ao acidente e pode deixar de lado as muletas do esquema narrativo desenhado. A fala corre solta, como “um sistema aberto (…) biodegradável, hospitaleiro, conectado às incertezas do destino”.

Com o tempo, “o terremoto deixa de existir e os tremores corporais cessam. O inchaço desaparece e volto a andar como se o acidente nunca houvesse ocorrido”. No último dia, a piscina é fechada para manutenção e uma pizza brinda a ida para casa. A casa, a consciência da solidão, o valor do acolhimento, o eu organizado.

Pequenas correções ainda precisam ser feitas, pequenas cirurgias e enxertia de células-tronco, “Graal da ciência”. Edgard está recomposto: já não pode se furtar a considerações ético-científicas sobre esses novos artefatos, se perguntando sobre a dependência dos tratamentos ao capital financeiro das empresas e planos de saúde, ao mesmo tempo em que percebe que uma medicina regenerativa se “incumbirá de sepultar de uma vez por todas o antagonismo entre a natureza e a cultura”.

Gaston Bachelard, Edgar Morin, o velho Quartier Latin dos anos 80, horóscopos, contos de Alan Poe, quadros de Escher, Kierkegaard, a reflexão sobre o corpo que se desliga das dores -tudo vai reinscrevendo o antropólogo na sua identidade intelectual, sempre tão forte e determinante no professor exemplar. É este o sujeito que, talvez com certo orgulho inconfessado, se transforma em estudo de caso do cirurgião, “sintetizado em artigo científico” e no pacto de voltar a cada dois meses ao consultório, como os indígenas que se dispõem a relatar aos antropólogos, em vários episódios, a criação do mundo.

Chego ao final do livro e leio: “A contingência do acidente valeu a pena!”. Algo que me deixa tão perplexo quanto quando vi, pela primeira vez, a série de desenhos de Flávio de Carvalho sobre a morte da própria mãe. Mas são tantos os significados dicionarizados da palavra “pena” que é difícil escolher um. Certamente se refere a uma reinvenção dolorosa da unidade entre corpo e consciência. Não a uma simples recuperação de algo anteriormente íntegro, mas a ligação de um outro eu a um outro modo de estar no mundo, um reinventar-se em vida, ainda que presidido pela dor. E só me vem à mente a fala longínqua de um personagem das “Noites do Sertão” de Guimarães Rosa, segundo o qual a vida vai indo, vai indo, mas também vem vindo.

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O livro: “Virado do avesso”, de Edgard de Assis Carvalho, Selecta Editorial, São Paulo, 2005, 133 págs.
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