arqueologia do futuro

23 maio

(Copyleft, publicado em CartaMaior.uol.com.br)

Algo se perdeu

A Arqueologia do Futuro, com a precisão de sua técnica depurada pelos milênios, traçará uma inequívoca visão dos dias em que habitamos o planeta Terra?

A arqueologia era uma ciência imprecisa nos tempos remotos. Os estudiosos dos séculos XX e XXI enfrentavam dificuldades intransponíveis que embaralhavam a mente e ofuscavam o entendimento do que se queria conhecer. Os pedaços desconexos das descobertas independentes, um crânio, uma peça de cerâmica, a parte de uma tíbia, os escombros de uma pirâmide, levaram os arqueólogos a construir fantasias descabidas sobre a origem da linguagem, do Homo Sapiens, e até mesmo, de seu modo de vida. Cada nova descoberta, geralmente resultado de uma escavação qualquer, questionava as informações anteriores, deixando claro que as explicações vigentes eram incompletas e inconsistentes. Escrevendo-se hoje, a partir do futuro, é motivo de orgulho observar que tais contradições desapareceram graças aos avanços tecnológicos. Indubitavelmente, possuímos atualmente a capacidade de descrever o passado de maneira clara e precisa. Os métodos existentes de datação, o acúmulo de dados arquivados, textos, imagens, poeira cósmica, permitem a elaboração de um retrato perfeito das eras imemoriais.

As escavações realizadas no planeta azul – os antigos o denominavam Terra – trazem à tona um material inédito: garrafas de coca-cola (tipo de infusão ingerida pelos indígenas) encontradas na China, restos de alimentos provenientes do consumo inadequado da carne (discute-se se a grafia correta da sua origem seria mac’s, mcdonald’s ou macdonalds), textos publicitários de países distintos, asiáticos e europeus, sobras de filmes produzidos num local estranho, Holly Wood (provavelmente um bosque sagrado), todos esses vestígios não deixam margem a dúvidas. Os povos ancestrais falavam uma única língua. Esta é uma constatação que pode ser inclusive validada pelos textos bíblicos (espécie de livro em papel, ingenuamente considerado como manifestação da vontade divina), nos quais apenas um idioma era utilizado pelos homens, quando viviam no Paraíso. A queda da humanidade, que culminou no episódio de Babel, havia introduzido uma proliferação nefasta de línguas que, ao que parece, felizmente se extinguiram no período histórico que estamos considerando.

O mundo desta época era também harmonioso e sem conflitos. Como as pessoas falavam o mesmo idioma a incompreensão era desconhecida. Todos podiam conversar uns com os outros, eliminando-se a possibilidade de mal-entendidos e comunicações truncadas. Além disso, os textos dos quais dispomos, indicam que após uma guerra imensa, culminando com a invasão de um país denominado Iraque, todas as nações se uniram para preservar o bem comum do planeta. Como apenas um desses países possuía um grande arsenal nuclear (os Estados Unidos), com armas potentes e inteligentes (e as ruínas são a prova irrefutável deste estado de coisas), parece-nos correto inferir que não seria conveniente guerrear neste quadro tão desigual de forças adversas. Seria inútil e insensato desafiar tal perigo. A paz foi então mantida durante séculos num ambiente de concórdia e conforto.

Discute-se se as sociedades passadas conheciam ou não a desigualdade econômica e social. Os vestígios existentes não nos permitem dizer com certeza o que se passou. Tudo indica, pelos artefatos coletados, edifícios de mais de quarenta andares, caraças de automóveis, aviões e trens de rápida velocidade, suportes tecnológicos altamente sofisticados, computadores, telefones sem fio, satélites, de que se tratava de um momento de fartura. Os homens dessas sociedades conheciam técnicas de plantio capaz de eliminar definitivamente a fome de todo o planeta e possuíam meios de comunicação efetivos para circundá-lo por terra, mar e ar. Seria, pois, altamente improvável a existência da pobreza e do abandono, inclusive porque os avanços da biogenética eram já consideráveis, prolongando a vida dos habitantes desses lugares.

Diz-se que o conhecimento do passado pouco nos esclarece sobre o futuro. Mas quando esta Academia de Lagado debruça-se sobre as longínquas populações terráqueas, não sem uma ponta de nostalgia, vislumbramos tempos bem melhores. Inteiramente distinto de nossa condição desesperada na qual o ar é rarefeito e a fome e a miséria uma presença inelutável. Já não vivemos como nossos antepassados, algo perdemos de sua sabedoria e discernimento quando viemos habitar outros confins da galáxia.

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RENATO ORTIZ nasceu em Ribeirão Preto, São Paulo, em 1947. Estudou na Escola Politécnica (USP) entre 1966 e 1969. Formou-se em Sociologia pela Universidade de Paris VIII e doutorou-se em Sociologia e Antropologia pela École dês Hautes Études em Sciences Sociales (Paris). Foi professor da Universidade de Louvain (1974-1975), da UFMG (1977-1984) e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-SP (1985-1988). Atualmente é Professor Titular do Departamento de Sociologia da Unicamp. Foi pesquisador do Latin American Institute da Universidade de Columbia, do Kellog Institute de Notre Dame, professor visitante da Escuela de Antropologia, no México, e Titular da Cátedra Simon Bolívar do Institut des Hautes Études em Amérique Latine e da Cátedra Joaquim Nabuco da Universidade de Stanford.

É autor dos livros: A Consciência Fragmentada (Paz e Terra), Pierre Bourdieu (Ática), Telenovela: História e Produção, em co-autoria com José Mário Ortiz e Silvia S. Borelli (Brasiliense), Cultura Brasileira e Identidade Nacional (Brasiliense), A Moderna Tradição Brasileira (Brasiliense), A Morte Branca do Feiticeiro Negro: umbanda e sociedade brasileira (Brasiliense), Cultura e Modernidade (Brasiliense), Românticos e Folcloristas (Olho D’Água), Mundialização e Cultura (Brasiliense), Um Outro Território: ensaios sobre a mundialização (Olho D’ Água), O Próximo e o Distante: Japão e Modernidade – Mundo (Brasiliense) e Mundialização: saberes e crenças (Brasiliense).

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