DaMatta homenageia RCO

24 ago

publicado em http://www.abant.org.br

Homenagem a Roberto Cardoso de Oliveira

Nós, seus primeiros alunos, o chamávamos escondido de “RCO”. Era um segredo de polichinelo porque ele sabia e gostava, já que a redução do nome às iniciais era uma forma de institucionalização; uma admissão precoce da perenidade que ele, naquela época jovem, tanto almejava

Nas aulas e nos seminários, discutíamos com o “Roberto”, que, nas suas intervenções, jamais dispensava a moldura filosoficamente inspirada, disciplina que o havia formado e com a qual teve uma ligação profunda até sua morte na sexta-feira, dia 21 de julho. Mas o tratamento sem formalismo e a saudável camaradagem brasileira não significavam nenhuma ultrapassem à sua autoridade de mentor intelectual, que constituía seu modo de ser. Eram algo que fazia parte natural de sua vida, como as asas são parte de um passarinho.

Sendo eu também um “Roberto”, mas aluno, logo descobri que o nome era exclusivo. Contentei-me então em ser conhecido como “Matta”, nome de guerra mais do que perfeito (ainda que exagerado!) porque, entre outras funções, não deixava dúvidas sobre quem era o “Roberto” naquele grupo.

Voltando pesaroso de suas exéquias em Brasília, vi a nota fúnebre que reiterava a melancólica realidade, sua morte, aos 78 anos. Um sujeito sentado do outro lado do minúsculo corredor que nos espreme nos aviões, com um jornal farfalhante em punho, lia coincidentemente a mesma página, e eu percebi quando ele passou os olhos pela nota. Eis o sal da vida: para ele, um patético obituário; mas, para a história da Antropologia brasileira, uma perda irreparável e, para seus familiares, ex-alunos, discípulos e amigos, uma catástrofe.

Uma reviravolta em nossa paisagem emocional, feita de pessoas que são casas, porões, escadas, cercas, poços, camas, mesas e paisagens. Algumas nos cercam e limitam, outras nos acolhem e amparam; algumas são nossa perdição, muitas nosso alento e nosso farol. Na paisagem de minha vida, Roberto Cardoso de Oliveira fica como um alicerce e um iluminado farol.

Desde que o conheci, quando tinha meus 20 anos, nele encontrei o professorpesquisador que pretendia ser. Na primeira visita que fiz a seu apartamento recheado de livros, no Leme, vendo-o ao lado de sua esposa, Gilda, e dos filhos, descobri nele o futuro que haveria de também ter. Finda a visita, percebi que Roberto me havia dado mais do que conselhos profissionais e um par de ensaios com dedicatória – os primeiros que recebi pois, naquele encontro, sabendo ou não, ele havia alicerçado minha vida.

Falo disso na tentativa de revelar o carisma de Roberto Cardoso de Oliveira. Esse sinal dos grandes mestres e dos corajosos criadores de instituições. Pois além de pescar pesquisadores, abrindo neles a chaga incurável da obrigação de escrever e de estudar, Roberto foi o intrépido criador de programas de Antropologia no Museu Nacional, em Brasília e em Campinas. Foi um raríssimo exemplo de professor capaz de ensinar e de fundar instituições. Como ele dizia: era preciso tocar e carregar o piano… Exercício necessário neste Brasil, que até hoje gosta de repetir, com vilania, que quem sabe faz e quem não sabe ensina!

No fundo – eis uma das revelações da morte -, Roberto nos ensinava a trabalhar para as causas perdidas, as únicas pelas quais vale a pena lutar: o estudo desinteressado das sociedades tribais, o ensino honesto de teoria social, a luta infindável contra o obscurantismo e a ignorância, o amor pela vida acadêmica, apesar das condições pífias da vida universitária no Brasil. De sua boca – vejam que espanto! -, ouvi muitas vezes um “eu estava estudando”, dito com o candor do aprendiz, para quem cada livro é um tesouro.

Não é meu intento revelar as contribuições de Roberto Cardoso de Oliveira, o nosso amado “RCO”, para as Ciências Sociais e, nelas para a Antropologia Social, termo que ele introduziu no Brasil sob o olhar patrulhador dos colegas mais antigos que, com razão, viam nisso a ameaça da inovação transformadora. Essas coisas chatas que nos obrigam a aprender e a enxergar o mundo de outro modo.

O que quero, nestas linhas, é tentar explicitar a personalidade marcada pela obsessão do estudo, da pesquisa e da escrita. É honrar o caráter vincado por uma invejável integridade moral, que me fazia projetar nele uma figura mítica conhecida de minha mãe. Um militar que ela descrevia como magrinho, pequeno, aparentemente frágil – exatamente como era o nosso professor -, mas dotado de uma força moral capaz de enquadrar a mais selvagem desordem.

É por isso que o desaparecimento físico de Roberto Cardoso de Oliveira é uma catástrofe. Um rebuliço que obriga o exercício maior de ultrapassar o mero esquecimento. Porque no caso do Roberto, não basta esquecê-lo; é preciso desesquecêlo.

Para tanto, só existe um meio: canibalizá-lo. Colocá-lo dentro dos nossos corações para que sua força moral e sua sede de saber sobrevivam e se multipliquem, ao lado do seu amor pela Antropologia Social e de sua imorredoura energia criativa.

Roberto DaMatta

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