O Homem Urbano

7 nov

publicado originalmente em NAU-USP. Rita Amaral (1992: 36-37)

“Do homem cuja vida é predominantemene urbana é possível dizer que ele é um homem “multifacetado”. Ou, “multidimensional”. Ele é, ao mesmo tempo, funcionário, eleitor, paciente, transeunte, passageiro, espectador, pai, marido, freguês, fiel, cliente, munícipe, aluno etc. É simultaneamente politicus, oeconomicus, hierarchicus, aesthetichus, religiosus… Sua noção de pessoa é constituída pela soma dos efeitos que dela emana temporal e espacialmente” (Simmel, 1987:21). Ele se encontra num ambiente que “promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor. Mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos”. Ser urbano, atualmente é fazer parte de um universo no qual “tudo que é sólido desmancha no ar” (Bermann, 1986: 15).
Esta constante “transformação” exterior e interior obriga o homem urbano a um crescente processo de individuação como modo de manter um núcleo de auto-compreensão. Tal procedimento, segundo Simmel (um dos primeiros autores a pensar a cidade como categoria sociológica), levaria a uma subjetividade altamente pessoal que, no limite, levaria à dissociação, à indiferença para com os demais e ao sentimento de solidão. Novamente a cidade deletéria.

Ainda que não se concorde com a teoria dos “impulsos nervosos”, de Simmel (que pensava o homem urbano como um ser massacrado por um turbilhão de acontecimentos (estímulos) cotidianos aos quais depois de certo tempo deixa de reagir, sofrendo uma espécie de “anestesia” que faz com que ele não se espante com nada; atitude distanciada – uma espécie de embrutecimento gerado pelo excesso de estímulos nervosos – que ele chama “blasé”), pode-se perceber a influência dos estímulos intelectuais fornecidos pela cidade como elementos constitutivos de certas atitudes tipicamente urbanas .
A efemeridade dos acontecimentos, a rápida e constante superação de um momento pelo outro, de uma tecnologia pela outra, de regras, de modas, de modos de ser, parecem influenciar, de alguma forma, a disposição do habitante das metrópoles para a incorporação de mudanças cada vez mais freqüentes. O apelo ao consumo desenfreado de bens que se tornam obsoletos em período cada vez mais curto, parece um exemplo de tal disposição. Além disso, o consumo, numa sociedade de massas, pode ser compreendido como o exercício de uma liberdade de escolha (entre marcas, modelos, cores, desenhos) que não encontra expressão livre em outras dimensões da vida social. Inclusive, e principalmente, o consumo de bens simbólicos, como a religião, por exemplo.
Esses “fiapos” de liberdade de escolha e de ação constituem, entretanto, aquilo que permite que a impessoalidade, a desintegração etc. de que falam Simmel, Wirth, Redfield, e outros, não possam ser entendidas como generalizadas e sem resposta. Porque os grupos sociais surgidos da divisão social do trabalho e da heterogeneidade cultural tendem a articular suas experiências comuns em torno de certos valores, tradicionais ou não. Assim, se o habitante da cidade se sente solitário diante da indiferença (qualquer que seja o conteúdo por ela manifestado) da cidade como um todo, se é ele que determina em que instâncias e espaços apresentará a sua “identidade”, ele utilizará os vários conjuntos de símbolos em suas interações e opções cotidianas, tecendo, com os “fiapos” de liberdade de escolha, de modo criativo, novas redes sociais, interpretando, reinterpretando, rearticulando e selecionando aqueles que melhor se encaixam em sua visão de mundo. E assim a cidade se torna uma cidade boa para se viver.
Ainda assim, o crescimento das cidades, com vastas aglomerações, extensas e complexas organizações nas quais a função oculta a pessoa, pode contribuir para o sentimento de uniformização aparente dos indivíduos. Contudo, se a cidade atual parece apresentar-se como uma sociedade sem estilo é justamente porque sua feição é a somatória dos estilos dos grupos que vivem nela.
A procura de novas formas de identidade, a difusão de estilos de vida diferenciados, a experimentação que tenta criar novas unidades sociais mais “afetivas”, a multiplicação de possibilidades de engajamento são tentativas de resposta a essa situação, ao sentimento de massificação.
Desse modo, por exemplo, a participação em um mutirão para a construção da casa própria pode não visar unicamente à obtenção de um bem que o Estado e a baixa renda deixam de proporcionar, mas também a oportunidade de conhecer os vizinhos, trocar idéias, avaliar o mundo. Mesmo que já se possua uma casa.
O encontro do “outro”, organizado em grupos que visam a esse fim (em clubes, associações, bares, turmas de paquera, times de futebol, terreiros, igrejas, movimentos de minorias, movimentos reivindicatórios, ou mesmo empreendimentos que têm por finalidade última o encontro de parceiros para o lazer ou para o amor, como os chats da Internet, o disquenamoro ou o disqueamizade) representa a tentativa de resposta e remédio para o sentimento de solidão urbana e permite o uso da criatividade na elaboração de códigos e regras, como que “recriando” a sociedade.
Muitos grupos se organizam mesmo como se fossem seitas e parecem ter, como primeira função, dar uma identidade e assegurar uma inserção (é o caso dos “skin heads”, “função”, “punks” e outros), ampliando a rede de troca e sociabilidade e enriquecendo a experiência pessoal. Todos esses fenômenos são experiências de reconstrução de relações sociais diretas e personalizadas”.

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