joguem pedra na antropologia, a geni da vez…

25 maio

O mês de maio de 2010 pode ficar conhecido como o tempo onde várias “forças” tem se levantado contra a antropologia e contra os antropólogos no Brasil. Uma nuvem densa de acusações e palavras de ordem contra a prática antropológica se levantam. Uma revista de circulação nacional produziu uma matéia onde antropólogos e minorias são execrados sem dó nem piedade. Hoje recebi uma cópia de um email onde um antropólogo e um militar trocam confidências sobre a “ideologia” dos antropólogos (enviadas ao grupo de estudos sobre comunidades quilombolas).
Numa linguagem e posição nacionalista e militaresca, acusam os antropólogos de pensarem e agirem simetricamente às populações vulneráveis e marginalizadas pela ordem do Estado Nacional. Acusam os antropólogos de alimentarem o sonho da liberdade e autonomia dos povos indígenas que tiveram seus territórios e futuros sugados pelo movimento de colonização da América do Sul.
Desde este ponto de vista, caberia aos antropólogos não se juntarem ao entendimento da dor indígena mas aprenderem a semear o ódio contra os aborígenes enquanto deveriam se juntar ao nacionalismo-militar. Ainda segundo esta posição, os militares são os únicos anjos dessa terra devastada. Eles guardariam o território nacional usurpado desses mesmos povos que hoje os antropólogos defendem – a esse respeito há um texto esclarecedor da antropóloga Alcita Ramos da UnB (http://vsites.unb.br/ics/dan/Serie147empdf.pdf) e que poderia ajudar a entender esse imbróglio.
Mas junto à essa linguagem de ódio aos antropólogos esconde-se a ignorância do que significa a antropologia. Certamente mais de metade dos mestres e doutores em antropologia no Brasil não tem como objeto de interesse intelectual (nem de luta política) os povos indígenas. Muitos, como eu, são antropólogos urbanos, interessados nos movimentos humanos nas cidades. Outros tantos interessam-se pela vida religiosa, pela cultura popular, pela política, pela biologia, pelo direito ou pela sexualidade. O panorama é tão amplo quanto as práticas e interesses dos humanos. Portanto, reduzir a antropologia a um embate ideológico é, no mínimo, má fé ou ignorância.
A meu ver, não há campo intelectual nas humanidades que seja um par à altura da antropologia. Ela causa inveja e horror justamente por ser este um campo assumidamente plural e instigantemente profundo e desafiador. A antropologia é, hoje, uma ferramenta sofisticada e nobre em prol do entendimento humano, no palco de sua diversidade. Ao juntar-se aos grupos que estudam, os antropólogos incidem naquilo que chamamos de advocacia antropológica, ou a defesa e o empoderamento dos grupos contra as ordens que os aniquila e os oprime.
Muitos fascistas, vestidos de nobres senhores e com uma militância nacionalista, julgam-se sem ideologia. A única coisa que desejam é cessar a voz dos povos indígenas em favor do que consideram ser correto. Os militares que fundaram um Estado de excessão em 1964 seriam atores legítimos? Os militares que oprimem populações vulneráveis em nossas cidades seriam as vozes limpas quando se procura entender os movimentos sociais? A receita é assumir o medo em vez de entendimento?
Precisamos estar atentos: a produção da antropologia brasileira é tão vasta, intensa e profunda que só por ignorância e ódio podem nos atacar assim abertamente (a esse respeito vale a leitura atenta desse documento que acaba de ser publicado pela ABA). Não somos como os militares nem como os jornalistas de Veja. Somos humanos em comunhão com o estado-da-arte da vida brasileira e, nosso maior “pecado”, é dar voz aos grupos marginalizados na esfera do “desenvolvimento” nacional. Calar os antropólogos é tarefa impossível. Que venham as pedras, porque Geni já não teme mais.

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