Quem sabe a morte, angústia de quem vive…

11 mar

Os rituais fúnebres variam de sociedade para sociedade. Mas, independentemente do tipo de cerimônia que a acompanha, a morte evidencia as redes maiores de sentido de cada grupo social. Quem discorre sobre o tema é o colunista Luiz Fernando Dias Duarte (Originalmente publicado em CiênciaHoje)

Quem sabe a morte, angústia de quem vive…

Cada cultura tem o seu modo de lidar com a morte. Em contextos metropolitanos e ocidentais como o nosso, sua experiência vem sendo relegada cada vez mais ao plano privado. (foto: Kristin Smith/ Sxc.hu)

Bem conhecido, o verso de Vinícius de Moraes se arma sobre uma correlação entre os binômios vida/morte e amor/solidão. Com sua sabedoria poética, expressa o universal desafio de lidar com a ausência do outro, seja nas formas cotidianas do afastamento físico ou afetivo, seja na forma radical do desaparecimento de cada ser humano.

A experiência da morte, universal como é, sugere a cada cultura complexas e multiformes elaborações simbólicas. Neste momento, encontro-me entre duas teses que abordam o tema de forma iluminadora.

A experiência da morte sugere a cada cultura complexas e multiformes elaborações simbólicas

Talvez nem todos os leitores saibam que o verão brasileiro acolhe uma profusa safra de teses universitárias, em função dos prazos de término do calendário acadêmico. É uma imersão fascinante, de tirar o fôlego, com a variedade dos assuntos, a pluralidade dos enfoques, a riqueza das análises.

O primeiro trabalho – tese de doutorado de Maria Paula Miller Duarte, do Museu Nacional/UFRJ – apresenta a trama da vida social de uma pequena cidade provincial italiana, Crotone, a partir de dois eixos: as participações fúnebres por meio de onipresentes cartazes públicos e a Festa da Madona – uma procissão anual que envolve o deslocamento da imagem sagrada conservada na catedral a um polo sacro fora da cidade, marcado pelas ruínas de um templo de Hera.

Cartazes fúnebres & status social

No primeiro caso, Duarte descreve a autoria e conteúdo desses cartazes. Diferentemente de nossos avisos fúnebres publicados na imprensa, que costumam ser elaborados por parentes imediatos e informar sobre o passamento do ente querido, eles são de autoria de terceiros e declaram a “participação na dor” de seus próximos por outras pessoas que lhes são, por sua vez, próximas.

Assim, por exemplo, os colegas de trabalho do filho do morto fazem um cartaz solidário expressando a dor de sua perda.

Cartazes de falecimento
Cartazes fúnebres espalhados pela cidade de Crotone, na Itália. Estudo revela diferenças marcantes entre esses cartazes e nossos avisos fúnebres, sobretudo no que tange a seu conteúdo e autoria. (foto: Maria Paula Miller Duarte)

Cada falecimento engendra uma trama complexa de participações, que obedece a etiquetas muito rígidas e de onde emerge um vívido retrato da posição social do falecido e da extensão e intensidade de sua rede familiar.

As participações fúnebres são uma parte apenas dos rituais da morte, que envolvem um Dia de Finados intensamente vivenciado no cemitério municipal. Por outro lado, esse local é uma das etapas da peregrinação da Madona, que o margeia em seu longo percurso.

À comemoração diurna e familiar do Dia de Finados se contrapõe uma frequência noturna e juvenil no momento da peregrinação. A oposição entre jovens e adultos é um dos eixos principais desse ritual e expressa a importância, numa sociedade razoavelmente fechada, de status atribuído e malha densa, do acesso à condição de sujeito social pleno, portador dos atributos de trabalhador e casado.

Por conta da decadência econômica da cidade, esse é um ponto nevrálgico: os jovens têm frágeis oportunidades de formação e de emprego locais e, por isso, migram com dolorosa frequência. Sua ausência é motivo de intensa inquietação, tanto quanto a daqueles que abandonam suas redes pela via da morte física.

Ritual solidário x cerimônia privada

O segundo trabalho – dissertação de mestrado de Jaqueline Pereira de Sousa, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Arqueologia da Universidade Federal do Piauí – descreve outro tipo de ritual, que ocorre no interior do Piauí e depende de um ‘exortador de corpos’.

Ritual fúnebre
Imagem capturada de um vídeo gravado no momento da morte de um homem no interior do Piauí. (fotograma: Jaqueline Pereira de Sousa)

Seu trabalho envolve o acompanhamento do moribundo com suas orações até o desenlace, os delicados processos de elaboração do cadáver e a articulação das cerimônias do luto. Até o transcurso de um mês do falecimento, ele deve retornar três vezes para intervenções associadas ao catolicismo popular.

A autora chama atenção para a solidariedade presente nesse ritual, de intensa participação pública, e para a ubíqua presença da morte nesse meio, tema das fotografias dispostas nas paredes das casas, de conversas frequentes com conhecidos ou estranhos, de imagens e filmagens dos enterros, que se revisita com gosto.

Para os que, como nós, vivemos em contextos metropolitanos de relações ‘frouxas’, esses ritos parecem exóticos. O fenômeno da morte vem sendo objeto de um longo processo de higienização e medicalização, que relega cada vez mais a sua experiência para o plano privado, pessoal, com a quase total extinção das manifestações públicas de luto e de pompa fúnebre.

Assim, os sentidos da morte bifurcam-se fortemente entre a pesquisa biomédica sobre adoecimento, envelhecimento e longevidade, distanciada da vivência de tão grave fenômeno, e uma experiência velada, discreta, quase clandestina, da parte dos sobreviventes.

A morte e os sentidos da vida

Acompanhada por rituais públicos, coletivos e altamente visíveis ou por cerimônias privadas – não menos socialmente constituídas –, a morte sempre evidencia as redes maiores de sentido de cada sociedade. Pode-se atribuir aos mortos as mais variadas qualidades; pode-se encarar o falecimento dentro das mais variadas modalidades, mas lhe é sempre conferido um caráter crítico.

A morte sempre evidencia as redes maiores de sentido de cada sociedade

Em muitos casos – como é notório –, a morte é a condição de acesso a uma condição superior, socialmente valorizada. Isso não lhe tira o caráter desafiador, pois as circunstâncias dessa sublimação não são universais nem automáticas.

Marcel Mauss (1872-1950), sociólogo e antropólogo francês, num texto instaurador (sugerido abaixo), aborda o caso extremo da imposição imaginária de morte, da experiência de um aniquilamento de si decretado pela opinião coletiva. Privilegiou o estudo desse fenômeno pelo potencial contundente de revelação do caráter socialmente construído do sentido da morte, num momento em que a privatização dos sentimentos tornava hegemônica entre nós a crença em uma autonomia radical dos indivíduos.

Seguia a pista de seu mentor, o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), que demonstrara que o fenômeno do suicídio, considerado tão exemplarmente pessoal, obedecia a regras sociais, estatisticamente comprováveis.

No filme Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas, do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul, um moribundo interroga o fantasma de sua mulher sobre o destino dos mortos. Ela lhe responde que o problema dos mortos não é o seu lugar póstumo, mas sua presença nos vivos.

Fotograma do filme 'Tio Boonmee...'
Fotograma do filme ‘Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas’, do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul. (foto: divulgação)

Eis porque ele próprio ali está, como fantasma visível, homólogo àqueles, mais ou menos invisíveis, que nos acompanham permanentemente, como os não-ditos que tornam significativa nossa fala. Ausências presentes.

Luiz Fernando Dias Duarte
Museu Nacional
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Sugestões para leitura:
Ariès, Philippe. História da morte no ocidente: da idade média aos nossos dias. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.
Durkheim, Émile. O suicídio: estudo de sociologia. Lisboa: Editorial Presença LDA, 1977 [1897], 470 pp.
Elias, Norbert. Solidão dos moribundos – seguido de “Envelhecer e morrer”. Rio de Janeiro: Zahar, 2001
Mauss, Marcel. ‘A expressão obrigatória dos sentimentos (rituais fúnebres orais australianos)’. In: Figueira, Sérvulo A. (Org.). Psicanálise e ciências sociais. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S.A., 1974 [1926].
Mauss, Marcel. ‘Efeito físico no indivíduo da idéia de morte sugerida pela coletividade [Austrália, Nova Zelândia]’. In: Marcel Mauss. Sociologia e antropologia. São Paulo: EPU/EDUSP, 1974 [1926].
Menezes, Rachel A. Em busca da boa morte: antropologia dos cuidados paliativos. Rio de Janeiro: Garamond/ Editora da Fiocruz, 2004.

Uma resposta to “Quem sabe a morte, angústia de quem vive…”

  1. Anonymous março 15, 2011 às 1:46 pm #

    Um belo texto trascendente, onde a morte é uma vida.

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